quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Francisco

Durante a noite acordei várias vezes. Umas vezes porque tinha dores de barriga. Não eram dores de estar doente, eram dores de saudade ou de solidão. Outras vezes porque ouvia sons no apartamento. Aliás, todas as noites oiço sons aos quais não estou habituado: o vento a passar por debaixo das portas, feitas um bocado da mesma forma que as calças dos moçambicanos, mais curtas do que deviam, ou o pássaro que martela com o bico na árvore lá de fora com um cuidadoso intervalo de 3 segundos entre cada martelada. Um barulho muito "tropical". Mas os sons que ouvi de madrugada (o sol levanta-se às 5h3o) eram passos que vagueavam pelo corredor que sai do meu quarto em direcção à cozinha. Não sabia se estava realmente acordado ou se estava mesmo a dormir, o certo é que, acordado ou não, continuava a ouvir as passadas.

Quando sai do quarto um moçambicano estava na sala com um grande sorriso na cara que contrastava com a sua cor de pele bastante escura, mais escura do que a maior parte dos moçambicanos. A postura do homem não se coadunava com o sorriso que esboçava, estava de ombros descaídos e braços abandonados. Este é o Francisco, um dos empregados do edifício onde estou hospedado:

-"Olá!, sou o Francisco, é o Francisco não é? Também sou o Francisco. Está bom? Disseram-me que poderia passar cá por casa durante a minha estadia, não o esperava era tão cedo!" disse-lhe.

-"Sim. Obrigado, senhor."

Apertei-lhe a mão, apertou-me a mão. Logo, poisou a mão esquerda sobre a parte de cima da mão que lhe estendera, no que me parece ser um hábito dos moçambicanos mais velhos, uma forma educada de se apresentar e conhecer outrem a quem também mostram respeito.
O Francisco parece tímido, mas não é. É bastante falador. Contudo, quando não sabe o que dizer deixa escapar um:

-"Sim. Obrigado, senhor." E não olha nos olhos.

O Francisco é um homem bom. Aliás, essa é a imagem que tenho da generalidade dos moçambicanos desde as minhas primeiras recordações de infância na Africa do Sul e depois, mais tarde, em Lisboa com aquele que foi, talvez, o meu primeiro melhor amigo, o Miguel. O Miguel trabalhava para nós na Africa do Sul e aceitou vir connosco para Lisboa até decidir voltar para Africa. Agora que penso nisso, não me lembro de me ter despedido dele em Lisboa.

Se puxarmos por ele, o Francisco revela-se um grande conversador, um verdadeiro opinador compulsivo acerca da trivialidade dos assuntos que nos rodeiam:

-"Costuma chover assim tanto, Francisco?" Perguntei.

-"Não! Só chove quando está mau tempo, senhor. As pessoas queixam-se que chove, que chatice! Mas é bom chover. É bom. É bom pra gente, faz bem." Disse, gesticulando com as mãos viradas na minha direcção como que querendo agarrar um invisível objecto de uma forma que me era desconhecida.
Ao mesmo tempo ia abrindo a boca e os dentes brancos voltavam a aparecer. "Estranho, não tem cáries", pensei.

-“Mas costuma haver muitas cheias destas? Na baixa, passei lá ontem, havia carros submersos!” investi.

-“Não, normalmente só há cheias quando chove muito, senhor. Mas é bom a chuva, é bom para a gente da agricultura, é bom para o comer. Sim.”

O Miguel tratava-me por “menino”. O Francisco trata-me por “senhor”, uma vez até me chamou “Doutor”. Apercebi-me que nestes últimos 19anos talvez tenha crescido um bocado.

O Francisco não é parvo nenhum, bem pelo contrário. É uma pessoa esperta e activa, na constante procura de melhorar aquilo que faz:

-“Encontrou alguma falha?” perguntou.

-“Desculpe?”

-“Sim. Não tenha medo de dizer os erros que viu. Os erros são bons. Agente aprendemos muito com os erros”.

-“Não, de todo! Está tudo óptimo, a casa está muito bem e a casa de banho está limpa, obrigado.”

-“Se vir alguma coisa, essa coisa está fora do lugar, me diz que eu muda essa coisa do lugar” afirmou.

-“Está bem, não se preocupe que eu digo, mas está tudo óptimo” disse.

Tinha um blazer cinzento muito espesso, daqueles de inverno e que já não se usam, e uma t-shirt preta por baixo. As calças eram de um tamanho acima, e calçava o que pareciam terem sido uns mocassins castanhos, mas que hoje já não passavam de umas confortáveis pantufas.

O Francisco foi o meu primeiro contacto com o povo moçambicano. O Francisco é um homem bom.

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